segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

a gente que torce pela gente


Mesmo antes de eu nascer, já tinha alguém torcendo por mim. Tinha gente que torcia para eu ser menino. Outros torciam para ser menina.
Torciam para puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai. Estavam torcendo para nascer perfeito! Daí continuaram torcendo...
Torceram para que eu fosse um bebê comportado. Torceram para que eu não chorasse de madrugada e continuaram torcendo para que me achassem o bebê mais lindo. Torceram para eu ficar cheirosa e ficar bonita nas roupinhas. E torciam para eu parar de pegar tudo com as mãos.
Torceram pelo meu primeiro sorriso, pela primeira palavra, pelo primeiro passo, e minha irma só torcia para que eu parasse de puxar seus cabelos e detonar com as bonecas dela.

O meu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E a primeira nota alta então? Torciam para eu parar de roer unha, para eu começar a ter um pouco mais de vaidade. Torciam para eu cortar o cabelo, e continuavam torcendo para eu não aprontar mais. E, de tanto torcerem por mim, eu aprendi a torcer.
Comecei a torcer para ganhar muitos presentes e flagar o Papai Noel. Torci o nariz pra cenoura e beterraba. Mas torci por batata frita e coca-cola.
Comecei a torcer até para um time. Provavelmente , nesse dia, eu descobriu que tem gente que torce diferente de mim.
O pai e a mãe torceram pra eu comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, não brigar na escola, e principalmente para eu não correr nos corredores. As pessoas só torciam pra eu ser uma pessoa bacana.
Minhas amigas torciam para eu fazer piadas e falar palavrão. Elas também estavam torcendo pra eu ser bacana. Nessas horas, eu só torcia para não ter nascido. E por não saber pelo que eu torcia, torcia torcido. Enquanto o pai e a mãe torciam para que eu não falasse palavrão, não quisesse por piercings e que eu tentasse mudar o meu grupo de amigos.
Torci para os outros irmãos que vieram com o tempo se ferrarem, torci pro mundo explodir. Torci o pé quando corri na escada e quando os hormônios começaram a torcer, torci pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso.
Depois comecei a torcer pela minha liberdade. Torci para ser boa nos esportes, para que eu tivesse uma boa voz e ser cantora. Torci para viajar com a turma, ficar até tarde na rua. E a mãe só torcia pra q eu chegasse vivo em casa.
Passei a torcer o nariz para as idéias dos professores e para qualquer opinião do pai e da mãe. Todo mundo queria era só torcer o meu pescoço.
E foi quando eu comecei a torcer pelo meu futuro. Torci para ser médica, na dúvida, torci para apenas terminar o ensino médio. Torci para nãp precisar fazer nada, torci para não precisar voltar pra casa. E todo mundo torcia pra passar logo essa fase.
Até que eu decidi de vez ser médica e torci ter feito a escolha certa. E hoje em dia, uma grande torcida se formou... Vizinhos, amigos, família e todos os Santos torcendo mim. Enquanto eu só torço para passar de vez os vestibulares e reunir a torcida para comemorar a aprovação em fevereiro!

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